A poeira da cratera Gusev guarda segredos. Há mais de vinte anos que os cientistas têm analisado dados de arquivo do rover Spirit da NASA, à procura de provas de que o Planeta Vermelho já esteve molhado. Eles encontraram pistas. Eles simplesmente os perderam em tempo real.
Um novo estudo sugere que o solo marciano contém mais minerais alterados pela água do que se imaginava. Fases contendo ferro, como hematita e magnetita alterada, estiveram presentes o tempo todo. Eles eram fracos demais para os instrumentos captarem o ruído.
O professor Paulo de Souza, da Universidade Edith Cowan, não apenas releu os dados. Ele o reconstruiu.
Como a hematita oculta muda nossa visão de Marte
A chave estava no MIMOS II, um espectrógrafo Mössbauer miniaturizado transportado pela Spirit. Ele mede como os átomos de ferro absorvem os raios gama para identificar minerais. É uma coisa sensível. Mas o veículo espacial estava com poucos recursos.
Poder limitado. Memória limitada. Tempo limitado.
Cada medição foi breve. Os espectros resultantes tinham estatísticas ruins. Fases menores de ferro, aquelas que constituem apenas uma fração de uma amostra de solo, se perderam no ruído. Os cientistas não podiam vê-los então.
Então o professor de Souza fez algo inteligente. Ele fez leituras de 32 alvos não perturbados na cratera Gusev. Estes foram coletados ao longo de 2.062 sóis (dias marcianos). As temperaturas variaram de 180 a 3 K.
As oscilações de temperatura de cerca de 10 Kelvin não distorcem os espectros basálticos o suficiente para serem importantes. Então ele mesclou os dados nessas janelas. Em seguida, ele combinou todas as faixas de temperatura em um conjunto de dados mestre.
O espectro consolidado apontou para a presença de minerais comuns no solo de Marte, como olivina e
piroxênio, juntamente com um
pouco cristalino, paramagnético
fase ferrosa.
O resultado? Aproximadamente seis dias de tempo de medição reunidos em uma única imagem.
Por que isso é importante para a habitabilidade passada
O espectro consolidado contou uma história mais rica. Confirmou os ingredientes basálticos esperados: olivina, piroxênio e aquela fase de ferro pouco cristalina. Mas também revelou algo mais claro.
Assinaturas de magnetita. Hematita cristalina.
Essas são as coisas que você não pode perder facilmente se olhar por tempo suficiente. A hematita, especificamente, costuma se formar na água.
“Uma das descobertas mais importantes foi
encontrando hematita cristalina
em marciano comum
solo”, Professor de
Souza disse.
“A presença generalizada deste mineral
sugere não só
aquela água
estava presente, mas
tão significativo
áreas
de
Marte
pode ter uma vez
esteve
coberto
por
água.”
Não se trata apenas de confirmar a umidade. Já sabíamos disso. É uma questão de escala. Se a hematita é comum no solo comum, a água não escorria apenas em eventos isolados. Pode ter coberto áreas significativas. Talvez até tenha ficado em corpos d’água.
As limitações da missão original tornam-se a força da reanálise. Ao agregar o que antes era considerado “ruidoso” ou “insignificante” devido às baixas taxas de contagem, surge o sinal. A história do planeta torna-se menos ambígua.
O Spirit pousou em 2004. Ele explorou até parar em 2010. Os dados estavam em arquivos, compartilhados entre instrumentos e restrições de tempo. Agora, com bastante paciência computacional e fusão estatística, fala mais alto.
A revista Interactions publicou os resultados. P. de Souza. 2016. Um Mössbauer consolidado
espectro para solos não perturbados
de Gusev
Cratera,
Marte.
O Planeta Vermelho estava molhado. Talvez não em todos os lugares. Talvez não o tempo todo. Mas certamente o suficiente para deixar essas impressões digitais de ferro na poeira.
Mais dados do Spirit esperam no escuro? Ou as próximas pistas estão nas tempestades de poeira que o enterraram?
































